8# ARTES E ESPETCULOS 18.12.13

     8#1 CINEMA  O COMEDIANTE ACIDENTAL
     8#2 CINEMA  BANQUETE ROMANO
     8#3 CINEMA  RIO ABAIXO, LADEIRA ACIMA
     8#4 LIVROS  A TURMA DO QUEBRA-TUDO
     8#5 TELEVISO  CORTA PRA ELE
     8#6 VEJA RECOMENDA
     8#7 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
     8#8 ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  BARATEAMENTO J

8#1 CINEMA  O COMEDIANTE ACIDENTAL
Como ator e diretor do encantador A Vida Secreta de Walter Mitty, Ben Stiller comea a desenhar a carreira que sempre quis para si.
ISABELA BOSCOV

     Em A Vida Secreta de Walter Mitty (The Secrer Life of Walter Mitty, Estados Unidos, 2013), que estreia no pas no dia 25, a legendria revista Life nunca encerrou suas atividades, como aconteceu em 2007: ela est viva ainda  embora por pouco tempo. Submetida a um feroz enxugamento, passar a existir on-line apenas. Ou seja, no mais ter capa.  preciso ento escolher uma foto absolutamente sensacional e emblemtica para seu ltimo nmero em papel: as capas foram sempre o argumento incontestvel da Life de que seu fotojornalismo estava colocando ali um tema na pauta global. O fotgrafo Sean O'Connell (Sean Penn) manda um pacote com o negativo dessa imagem definitiva. Walter Mitty (Ben Stiller), o editor, prepara-se para examin-lo  e no o encontra. Uma calamidade: Walter sempre zelou pelo patrimnio maior da revista sem cometer um erro; e, com seu jeito introvertido, apagado e esquisito, ele desde o primeiro instante se ps sem querer na mira do gestor da "transio" (Adam Scott).  preciso achar o negativo; para isso,  preciso encontrar o fotgrafo, que pode estar em qualquer lugar do mundo. Mas Walter nunca se aventurou atm do seu bairro e da redao. A nica vida que ele tem  a interior: sonha acordado constantemente, fabricando enredos desvairados em que enfrenta perigos, derrota inimigos, sobe montanhas e conquista Cheryl (Kristen Wiig), colega a quem, fora dessas fices ntimas, ele mal dirigiu a palavra at o momento. 
     Um conto publicado em 1939 pelo escritor e cartunista James Thurber e depois um filme assim-assim protagonizado pelo comediante Danny Kaye em 1947, A Vida Secreta de Walter Mitry era uma obsesso de Ben Stiller.  medida que figuras notrias como Eddie Murphy e Jim Carrey foram perdendo seu empuxo, Stiller se estabeleceu como o comediante mais bem-sucedido da atualidade. Seus filmes (contadas a as animaes a que ele empresta a voz, como Madagascar) geraram uma renda mundial de quase 6 bilhes de dlares, boa parte deles concentrada em franquias como Uma Noite no Museu e Entrando numa Fria. Seu xito  de certa forma surpreendente: talvez nenhum outro astro da comdia tenha projetado uma persona to complexa quanto a de Stiller, um amlgama de frustrao, ansiedade e insegurana cuja tmpera vem, paradoxalmente, de uma certa ingenuidade e uma ntida vaidade. Uma hiptese para a receptividade que essa mistura complicada encontrou junto ao pblico: ela parece no uma frmula, mas sim algo autntico e espontneo  vale dizer, suspeita-se que ela tenha muito em comum com o Stiller da vida civil. 
     Filho dos atores/comediantes Jerry Stiller e Anne Meara, Ben entrou no negcio para ser um cineasta, e no para ficar diante das cmeras. Depois de passar pelo Saturday Night Live e de virar um cone da MTV com o Ben Stiller Show, estreou dirigindo Caindo na Real, em 1994, e desde ento assinou trabalhos excelentes, como Zoolander e Trovo Tropical, nos quais deu vazo  faceta mordaz que tem de pr sob rdeas nos filmes famlia". Mas sua presena se provou desde o incio um atrativo irresistvel para a plateia. O que s alimentou a frustrao secreta de Stiller, assim como os hbitos que se foram tornando clebres no meio. Stiller tem a reputao de duvidar de si e dos outros o tempo todo, de questionar a mais simples piada at suas ltimas consequncias, de vetar diretores e parceiros de cena, de fincar o p e no ceder. De ser, enfim, "difcil"  mas tambm integralmente investido no trabalho e nos propsitos a que ele se destina. 
     O propsito de A Vida Secreta  claro: este  o Ben Stiller que Ben Stiller sempre quis ser. "Era hora", disse o ator/diretor a VEJA. Lrico, e triste mas otimista, o filme acompanha Walter na tentativa de se despegar do cotidiano em que ele se refugia e de vencer o medo de que uma vida plena no esteja nas cartas para ele. Emprega, tambm, uma linguagem muito mais sofisticada do que Stiller arriscara at aqui. Cada delrio de Walter  uma criao visual  parte  mas,  medida que ele adentra o mundo real. as cores e a ao vo migrando da fantasia para o palpvel. E mais e mais, tambm, a fisionomia dos atores (profissionais e amadores ou desconhecidos recrutados ao redor do mundo) vai ganhando relevncia: a conexo pessoal  o risco maior que Walter nunca ousou enfrentar, e para o qual ele comea a se abrir. Humor, h muito: piada, propriamente, nenhuma  um risco, perante as expectativas da plateia, que s graas ao imenso cacife de Stiller o estdio bancou. O curioso, como sempre no caso de Stiller,  quanto Walter Mitty se parece com ele prprio. "No existe sucesso ou dinheiro capazes de mudar o fato de que cada ser humano duvida de si. Os sentimentos de Walter so os meus sentimentos. E, como ele, h uma zona de segurana da qual eu precisava me libertar", diz Stiller. Que, pela primeira vez, verdadeiramente ganha o mundo. 


8#2 CINEMA  BANQUETE ROMANO
Ao revisitar e modernizar a tradio do cinema italiano, A Grande Beleza se revela um filme espetacular.
MRIO MENDES

     Em uma noite de alto vero em Roma, no terrao de uma cobertura com vista privilegiada para o Coliseu, um grupo de amigos  todos acima dos 50  faz consideraes sobre a vida. Entre queixumes, desabafos e anedotas, o anfitrio Jep Gambardella (Toni Servillo) pondera, com um misto de troa e melancolia: "Estamos todos  beira do desespero e tudo o que podemos fazer  nos olhar de frente, fazer companhia uns aos outros, brincar um pouco... Vocs no concordam?". Alm de sublinhar com elegncia uma das melhores sequncias de A Grande Beleza (La Grande Bellezza, Itlia/Frana, 2013), que tem estreia no pas prevista para esta sexta-feira, a frase condensa o olhar implacvel e o sentimento agridoce que envolvem e conduzem o brilhante filme do diretor Paolo Sorrentino. 
     Sorrentino, de As Consequncias do Amor, demonstra notvel desenvoltura e segurana ao caminhar sobre um territrio antes percorrido pelos grandes do cinema italiano  sobretudo Federico Fellini, a quem o filme deve muito do visual barroco, mezzo sonho mezzo circo. O Jep Gambardella interpretado com deliciosa verve por Servillo, alis,  praticamente uma verso envelhecida do jornalista vivido por Marcello Mastroianni em A Doce Vida. To ou mais clebre que as personalidades que costuma entrevistar, ele ao mesmo tempo despreza os ritos mundanos da alta burguesia romana  regados a indulgncia e privilgio  e participa deles, enquanto contempla o seu prprio declnio. Depois de uma retumbante festa de aniversrio de 65 anos, ele recebe a notcia da morte de seu grande amor de juventude e comea a fazer um balano da existncia. A tradio que Sorrentino honra a, em particular,  outra: a da crnica masculina vigorosa e exuberante que praticavam, por exemplo, o Dino Risi de Aquele que Sabe Viver e o Luchino Visconti de Violncia e Paixo. 
     Se a narrativa episdica foi uma das grandes artes do cinema italiano das dcadas de 50 e 60, as situaes, aqui, no podem ser mais atuais: a performance oca de uma artista falastrona, uma conversa sobre redes sociais depois de uma escapada sexual frustrante, uma Botox party realizada no que parece ser um bordel de luxo. Alis,  exatamente em um desses estabelecimentos que o velho jornalista encontra Ramona (Sabrina Ferilli), stripper quarentona cansada de guerra, e vislumbra a possibilidade de um novo amor. Juntos eles vo a um funeral de alta classe, participam de uma festa decadente e visitam a fantasmagoria noturna dos palcios romanos repletos de obras de arte e habitados por princesas encarquilhadas. 
     Mas, enquanto sente o amor e a vida lhe escaparem, Gambardella  atormentado por outro fantasma ainda: nunca conseguiu repetir o sucesso do livro que escreveu no incio de carreira. O Aparelho Humano  elogiado tanto pela Igreja quanto pela intelligentsia. Aos amigos que lhe cobram a faanha, ele alega nunca ter realmente encontrado "a grande beleza". Talvez tenha estado to mergulhado na pulsao da cidade que escolheu para viver cinquenta anos antes que no percebeu que ela, a beleza gloriosa da civilizao, esteve o tempo todo  sua volta. Ou talvez esteja certo o amigo ilusionista, pronto a fazer desaparecer uma girafa, que lhe diz: "No existe magia.  tudo truque". 


8#3 CINEMA  RIO ABAIXO, LADEIRA ACIMA
O Hobbit: a Desolao de Smaug sugere que, no prximo filme, Peter Jackson vai afinal se redimir do fiasco criativo que foi o primeiro episdio da trilogia.
ISABELA BOSCOV

Eu sou o fogo, eu sou a morte", proclama o drago, os olhos em brasa, na voz profunda e sinistra de Benedict Cumberbatch  e finalmente O Hobbit: a Desolao de Smaug (The Hobbit: The Desolation of Smaug, Nova Zelndia/Estados Unidos, 2013), desde sexta-feira em cartaz no pas, pega fogo. No chega a ser ironia que essa fasca (ou labareda mesmo: Smaug  um drago muito ativo) provenha de uma criatura inteiramente  digital elaborada a partir da captura dos movimentos e expresses de Cumberbatch: tambm Gollum, uma das figuras mais cativantes e expressivas da trilogia O Senhor dos Anis, existia graas  combinao de tecnologia com o talento do ator Andy Serkis. Mas , sim, uma surpresa: se de comeo A Desolao de Smaug ainda tem muito em comum com Uma Jornada Inesperada, o filme que um ano atrs inaugurou a srie (o que no  bom), sua parte final sugere que no prximo e derradeiro episdio o diretor Peter Jackson pode muito bem vir a se redimir do fiasco criativo que foi a chegada de O Hobbit aos cinemas, em 2012. 
     Ainda h boas razes para questionar a deciso de Jackson de fazer de O Hobbit um conjunto de trs filmes com quase trs horas de durao cada um. Quando o diretor optou por essa sada para sua adaptao de O Senhor dos Anis, h mais de uma dcada, seus motivos eram evidentes e autoexplicativos. A obra mxima de J.R.R. Tolkien , claro, ela prpria uma trilogia. Rene centenas de personagens (quase todos bem mais carismticos que os de O Hobbit) espalhados por uma vasta geografia e descreve eventos cuja ressonncia se transfere sem esforo do papel para a imagem: o mal absoluto contra os esforos desesperados do bem, a destruio irrevogvel do mundo contra a tentativa de preservar algo de sua essncia e beleza. Na verdade, as mais de nove horas somadas de projeo mal foram suficientes para transpor para a tela o extensssimo e intrincado enredo de Tolkien. 
     Comparado a isso, o que  O Hobbit? Um singelo livro infantil lanado por Tolkien em 1937, quase duas dcadas antes de O Senhor dos Anis, que trata de um hobbit instado pelo mago Gandalf (ento ainda muito longe da plenitude de seus poderes) a acompanhar treze anes numa aventura para retomar a residncia ancestral destes, sobre cujos tesouros o drago Smaug agora se refestela. Um livro encantador, decerto  mas curtinho, modesto, quase uma brincadeira. 
     O projeto de Jackson foi sempre aproximar O Hobbit em tom, timbre e escopo de O Senhor dos Anis. No primeiro filme, porm, o que se viu foi uma repetio desanimada do que j fora feito antes; at nos movimentos de cmera Jackson parecia estar imitando a si mesmo (d-lhe peregrinao, d-lhe batalhas, d-lhe cmera afastando-se dos personagens para mostrar a vastido dos cenrios nos quais eles peregrinam ou batalham).  nessa toada tambm que comea A Desolao de Smaug. Mas logo o filme encontra um passo mais ligeiro: Bilbo (Martin Freeman) e os anes so raptados por aranhas imensas, fogem de elfos no muito amigveis em barricas, rolando rio abaixo, chegam  interessante Cidade do Lago, acham uma entrada para sua montanha, s escondidas de Smaug. H mais humor, ritmo, ao e equilbrio. H mais drama, tambm, e na nota certa. H muito recheio inventado por Jackson e suas corroteiristas, Fran Walsh e Philippa Boyens, j que aquele pouquinho que est na pgina impressa nunca daria conta de preencher tanto filme  mas, ao contrrio do que acontecia em Uma Jornada Inesperada, ele no sabe a encheo de linguia, e sim a criao mesmo. H personagens que nunca estiveram no livro, como Legolas (Orlando Bloom), mas cuja apario  muito bem-vinda. E h essa maravilha que  Benedict Cumberbatch, em forma de drago, som e fria, alando voo para aterrorizar a Terra Mdia. Agora  ver se, no ano que vem, O Hobbit: L e de Volta Outra Vez consegue ir s alturas com ele. 


8#4 LIVROS  A TURMA DO QUEBRA-TUDO
Em doze ensaios biogrficos, o socilogo Demtrio Magnoli revela quanto os intelectuais revolucionrios foram movidos por conflitos e ambies pessoais.
DUDA TEIXEIRA

     Foi o toque de uma mulher bbada no corpo de Sayyid Qutb que levou o funcionrio do Ministrio da Educao do Egito a radicalizar suas ideias. Hoje uma inspirao para terroristas islmicos do mundo todo, ele estava em viagem aos Estados Unidos, onde viveu por dois anos e meio a mando de seu governo. A experincia foi to traumtica que o funcionrio antecipou a volta. Das jovens americanas, concluiu que o poder de seduo estava "nos seios redondos, nas ndegas cheias, nas coxas bem torneadas e nas pernas elegantes". Para sua completa repulsa, elas nada faziam para esconder seus tesouros. As igrejas no passavam de "praas de recreio sexual". No Cairo, nos anos 1950, Qutb ingressou no grupo radical da Irmandade Muulmana. Em seu livro Milestones (Marcos), escrito no crcere, ele desenvolveu o conceito da jihad como uma guerra contra os infiis do Ocidente. Em meio  globalizao, homens como ele viram que, por meio da jihad, poderiam afastar o futuro que os amedrontava e, de quebra, impor seu poder sobre aquilo que estava ao alcance: suas prprias mulheres. Quando um demente atira contra cristos em um shopping no Qunia ou contra uma menina no caminho da escola no Paquisto est, no fundo, seguindo os passos de Qutb  um homem que dizia no ter se casado porque no encontrara uma mulher suficientemente pura. 
     Expor os problemas privados dos outros  uma ttica rasteira, usada com frequncia para atacar rivais ideolgicos. Desvios sexuais, infidelidades conjugais ou a relao familiar no so medidores confiveis da qualidade de uma figura pblica. Excees devem ser abertas aos revolucionrios. Padecendo de problemas pessoais, muitos deles procuraram resolv-los destruindo o mundo  sua volta para mold-lo ao seu interior doentio. Essa  uma das concluses que se podem tirar de A Vida Louca dos Revolucionrios (Leya: 240 pginas: 39,90 reais), do socilogo Demtrio Magnoli. A obra recm-lanada traz doze ensaios sobre personagens como Qutb: com aspiraes desmedidas, traumas de infncia e preconceitos tnicos. Suas palavras empoladas e em prol de uma humanidade melhor s resistiram at provocar a primeira morte. 
     No Camboja, o comunista Pol Pot  conhecido por ter levado um quarto da populao nacional  morte entre 1975 e 1979. Sem conseguir implantar uma sociedade igualitria nas cidades, obrigou todos os habitantes a mudar-se para o campo. Milhares morreram de fome. Pol Pot dividiu a populao em trs grupos: o povo, os candidatos a povo e as "novas pessoas", que deveriam ser eliminadas. O alvo dos golpes de picareta, o principal mtodo de assassinato, eram principalmente aqueles com ascendncia ou origem vietnamita, pelos quais Pol Pot nutria enorme antipatia. Enquanto os desafetos de Pol Pot eram os vietnamitas, os da alem Ulrike Meinhof eram os nazistas  de sua prpria famlia. O conhecimento de que seu pai tinha pertencido ao partido de Adolf Hitler a levou a fundar a organizao terrorista Baader-Meinhof. Ela dizia que a Alemanha Ocidental, uma democracia em pleno vigor, era um Estado fascista contra o qual toda violncia seria legtima. Ao confundir democracia e totalitarismo, ela expiava a culpa que trazia no sangue. 
     Todos os revolucionrios eram membros da classe mdia. Pol Pot estudou em uma escola francesa de elite. Ulrike era uma jornalista bem-sucedida, me de dois filhos. Para Magnoli, o achado no foi uma surpresa: "Os revolucionrios so o resultado da abundncia do capitalismo". A inclinao pela revoluo seria um sintoma da ambio pelo poder. Ao desmontarem o Estado, eles poderiam se tornar os novos monarcas, ou seus conselheiros diretos. Mesmo quando cometeram a revoluo, o clculo nem sempre funcionou. Com o caos instalado e as instituies corrompidas, eles encontraram o castigo no prprio sucesso. 


8#5 TELEVISO  CORTA PRA ELE
Marcelo Rezende, do policialesco Cidade Alerta, vem encostando na audincia da Globo. Ele diz que sua novela do mundo co  melhor que as tramas da emissora lder.
BRUNO MEIER

     Quinze minutos antes de ir ao ar, Marcelo Rezende entra no estdio, concentrado. Pede ao diretor Clvis Rabelo que informe, pelo ponto eletrnico, quais so as quatro reportagens com potencial para abrir a edio do dia do Cidade Alerta. Decide-se pela mais pesada: um padrasto preso sob acusao de abusar sexualmente da enteada. No primeiro intervalo comercial, o assunto  ameno. Rezende fala ao companheiro de cena, o jornalista Percival de Souza, sobre os planos de frias: "Vou para a Disney com minha filha e depois passo quinze dias tomando vinho em Bordeaux".  frente do Cidade Alerta desde seu relanamento, em 2012, Rezende tem o que comemorar. A cobertura ininterrupta das manifestaes de junho conferiu vigor ao programa, que ocupa regulares trs horas e vinte minutos da programao da Record. O desempenho tbio das atuais novelas das 6 e 7 da Globo tambm ajuda: a mdia do show do mundo co apresentado por Rezende ao longo do ano est em 9 pontos. Resultados ainda melhores vieram nas ltimas semanas. Numa curva nunca vista antes no horrio, o policialesco encostou em trs produtos-chave para a Globo: Malhao, Joia Rara e Alm do Horizonte  a novela das 7, uma incompreensvel emulao da srie Lost,  a mais ameaada. H duas semanas, enquanto a Globo marcava 15 pontos na Grande So Paulo, Rezende atingia 10. Por alguns minutos, a diferena apertou: 13, contra 11 da Record. "O novelo que eu criei est mais interessante que as tramas da Globo", espezinha Rezende. 
     Aos 60 anos e com 100 quilos, o apresentador hoje domina em um terreno que j foi do tambm grandalho Jos Luiz Datena: o sensacionalismo policial. At mais agressivo que o rival da Band, Rezende defende, ao vivo, a pena de morte para pedfilos e manacos sexuais. "Esses caras no tm cura. Vm com problema no chip", justificou na entrevista a VEJA. Como 15% do pblico tem entre 4 e 17 anos, ele diz que tem maneirado nas imagens mais chocantes. Estupro e assassinato, no entanto, so parte essencial do cardpio. 
     O esgoto eletrnico tem uma tradio longa na TV, mas Rezende customizou a frmula. Escolheu e moldou um time de reprteres que servem de coadjuvantes. A amazonense Fabola Gadelha virou Fabola Rabo de Arraia, a intrpida jornalista que no se intimida com criminosos. Outra reprter ganhou o expressivo apelido de Silvy Voz de FM ("Ela tem a voz rouca daquelas locutoras da meia-noite que o cara no sabe se escuta ou vai para o motel", elabora Rezende). Luiz Bacci, apresentador de 29 anos da Record no Rio, completa a turma como o Menino de Ouro  e haja ouro: seu salrio fica em torno de 80.000 reais mensais. 
     O prprio Marcelo Rezende ganha 230.000 reais. Seu salrio  o maior custo do programa: telejornais policiais so produtos baratos e de retomo rpido em audincia. SBT, Band, RedeTV! e Record valem-se do gnero para levantar o fim de tarde. No Cidade Alerta, a produo conta com uma equipe reduzida de 21 jornalistas, e 90% das matrias veiculadas vm de afiliadas, o que alivia o oramento. O formato fcil, porm, esbarra na dificuldade de encontrar anunciantes qualificados que queiram ser associados ao gnero. Embora tenha atrado boas marcas nos comerciais desde as manifestaes, Rezende no tem patrocinador. " um dilema. Em trs horas de programao, poderamos faturar mais, mas hoje j no h outra opo para alcanar essa audincia", diz um executivo da emissora. 
     A despeito do salrio polpudo, o apresentador no se considera rico: "Um homem com cinco filhos sempre vai precisar de trabalho". Rezende ingressou de vez no policialesco nos anos 1990, ainda na Globo, com o Linha Direta, programa concebido para estancar a ascenso, no SBT, de um rei da baixaria, Ratinho. Leitor voraz, o jornalista dorme pouco: costuma acordar s 4 da manh e passar horas lendo na cama. Tem um retrato do escritor alemo Thomas Mann pendurado em sua sala na Record. "Foi quem melhor escreveu sobre a alma humana", afirma. Enfilo, possui uma coleo de 1000 garrafas de vinho e tem organizado rodas de amigos para beber  entre eles, o apresentador Ronnie Von. Mora sozinho em uma casa de trs andares num condomnio de luxo em Barueri, na Grande So Paulo. "No poderia viver com mais ningum. Dormi em quarto separado at mesmo nos meus dois casamentos. Gosto do silncio", diz. Na entrevista, fala com uma voz calma que no faz suspeitar o apresentador histrinico do Cidade Alerta. Eleva o tom quando indagado sobre religio: "Detesto todas.  um atraso para qualquer homem". Mas no  um problema dizer isso na emissora do bispo Edir Macedo? Rezende volta ao tom manso: "No. No estou falando da Igreja Universal, estou falando de todas as religies", desvia. 

TRUQUES SENSACIONAIS
Nas mais de trs horas dirias do Cidade Alerta, Marcelo Rezende segue uma cartilha consagrada em programas jornalsticos voltados para o mundo co. 

NARRAO DRAMTICA - Tal como j fazia o reprter Gil Gomes, Rezende costuma falar em tom emocional, com pausas calculadas para valorizar o suspense. Esse tipo de locuo fisga a ateno de quem est apenas passando pelo canal. Em eventos ao vivo  por exemplo, quando o helicptero flagra uma perseguio policial , a voz ganha em urgncia. 
POPULISMO - Quando discursa contra a impunidade de criminosos ou mazelas sociais, Rezende se coloca como um porta-voz de ansiedades do espectador. "Somos uma famlia que entra na casa das famlias para formar uma famlia s", define. 
REPETIO - Imagens impactantes  o desespero de uma me cujo filho foi assassinado ou uma batida policial  so apresentadas  exausto. O recurso chama-se loop e  muito usado pelos  editores da Record. 
BORDES - Criado de improviso, para acordar um diretor desatento que deixara uma imagem parada na tela, "corta pra mim" tornou-se a marca registrada do apresentador. Tambm  o ttulo do livro de Marcelo Rezende, que j  vendeu 50.000 exemplares. 


8#6 VEJA RECOMENDA
CINEMA
ALM DA FRONTEIRA (OUT IN THE DARK, ISRAEL/ESTADOS UNIDOS, 2012. J EM CARTAZ)
 Nimr (Nicholas Jacob), um estudante de psicologia palestino, conhece Roy (Michael Aloni), um jovem advogado judeu, num bar gay de Tel-Aviv, e a atrao  no apenas mtua e imediata como eletrizante. Roy j assumiu faz tempo a homossexualidade para seus pais e, na moderna Tel-Aviv, ela no  um obstculo pessoal nem profissional para ele. Nimr, ao contrrio, vive em absoluto segredo. No s a me e o irmo o expulsariam de casa se soubessem da verdade, como ele correria risco de vida no territrio de Ramallah, onde mora, e do qual cruza a fronteira para Israel semanalmente com uma licena acadmica. E  a revogao abrupta dessa licena que ameaa no s o romance, como todo o equilbrio da vida dos dois namorados: a agncia de segurana interna israelense descobre que o irmo de Nimr anda estocando armas em casa; prope-lhe um toma l d c (ou seja, que ele se torne informante confidencial): e, diante da recusa do rapaz, medidas drsticas comeam a ser tomadas. O diretor Michael Mayer tem uma agenda clara, expor a dupla barreira que se interpe entre Nimr e Roy. Mas o faz com honestidade, talento e um sentido ntimo da tragdia que acomete o Oriente Mdio.

UM TOQUE DE PECADO (TIAN ZHU DlNG, CHINA, 2013. J EM CARTAZ)
 Uma China que vem sendo arrancada do seu cho pela raiz foi sempre o tema do cineasta Jia Zhang-ke. O que muda, em cada um de seus filmes,  o prisma pelo qual esse desenraizamento  visto, e o aspecto da existncia sobre o qual ele exerce seu enorme impacto: uma trupe de teatro nacionalista que vira grupo pop quando o pas entra na trilha desenvolvimentista de Deng Xiaoping (em Plataforma, de 2000), um parque temtico em que os smbolos de outras naes  o Big Ben, a Torre de Pisa, a Torre Eiffel  so reproduzidos em miniaturas mambembes (O Mundo, 2004), pessoas que retornam  sua cidade, para um ltimo olhar melanclico, antes que ela suma sob as guas da represa de Trs Gargantas (Em Busca da Vida, 2006), a perplexidade dos operrios de uma fbrica que ser demolida para dar lugar a um condomnio para a classe mdia urbana em ascenso (24 City, 2008). O novo Um Toque de Pecado talvez seja o mais atordoante de todos esses registros: cada um dos protagonistas cometer um crime brbaro; cada um deles tem razes completamente diversas para faz-lo: mas todas essas razes de alguma forma nascem desse solo revirado pelo crescimento econmico, pela competitividade e pelo casamento tumultuado que se firmou entre os hbitos ocidentalizados, a tradio milenar e os vcios da burocracia comunista.

DISCOS
AND I'LL SCRATCH YOURS, VRIOS INTRPRETES (UNIVERSAL)
 A expresso inglesa Scratch my back, Ill scratch yours  equivalente da brasileira "uma mo lava a outra''. Para o cantor e compositor Peter Gabriel, ela se traduziu numa saudvel troca de favores musicais. Trs anos atrs, ele lanou um disco no qual fazia releituras de seus contemporneos (David Bowie, Lou Reed) e nomes da nova gerao (Arcade Fire, Radiohead). Em And I'll Scratch Yours, alguns dos homenageados retribuem " a gentileza, recriando suas canes prediletas do repertrio de Gabriel. Embora reverentes, os novatos Regina Spektor e Bon Iver entenderam as mensagens de paixo e dor contidas nas letras de Blood of Eden e Come Talk to Me. O Arcade Fire adicionou sua sonoridade tnica a Games without Frontiers. Mas so os veteranos que surpreendem mais, ao trazer Peter Gabriel para o seu universo.  o que se pode perceber na verso cheia de rudos de Lou Reed para a balada Solsbury Hill, nos experimentos de Brian Eno em Mother of Violence e na transformao operada por Randy Newman em Big Time: o funk original de Gabriel foi convertido em uma balada pessimista sobre o showbiz.

SISTEMA DELIRANTE AMPLO E DEFASADO DE REALIDADE, VULGUE TOSTOI (BOLACHA)
 Demorou treze anos para que o grupo carioca, um dos melhores do cenrio alternativo do pop rock nacional, lanasse a continuao de seu celebrado lbum de estreia. Durante esse perodo de hibernao, o guitarrista JR Tostoi entrou para a banda do cantor Lenine e se tornou um produtor requisitado, o vocalista Marcello H. se dedicou s artes plsticas (alis, ele  o autor da arte da capa) e o baixista Victor Z. se afastou da cena musical. Sistema Delirante Amplo e Defasado traz muito do estilo de Tostoi, um guitarrista mais afeito a timbres e efeitos de guitarra do que a solos virtuossticos  ainda que ele no negue fogo na cano Ser Preciso. H boas ideias, como o sample do grito de James Brown em Doce, que tem participao de Katia B. A instrumental No Bar Rebouas com Morricone casa a sonoridade dos temas do maestro italiano Ennio Morricone, presena constante do western spaghetti, com guitarras. E Marcello  um cantor competente: brilha tanto numa cano que remete ao pop rock nacional dos anos 1980 (Exlio, uma das melhores do lbum) quanto numa balada triste (Samba do Silncio, que traz uma palinha de Lenine).

LIVRO
UMA VERDADE DELICADA, DE JOHN LE CARR (TRADUO DE HELOSA MOURO; RECORD; 308 PGINAS; 45 REAIS)
 Na Guerra Fria, uma disputa quente se dava na seara dos romances de espionagem: enquanto o ingls Ian Fleming vendia uma imagem fantasiosa da atividade com as aventuras do agente 007, seu conterrneo John Le Carr oferecia uma providencial anttese realista quele mundo de carres e mulheres. Ex-agente secreto de verdade, L Carr pintava os bastidores da espionagem com tintas perturbadoras: um ofcio em que burocratas lacnicos eram lanados em misses que por vezes disfaravam interesses inconfessveis (seu clssico O Espio que Saiu do Frio, alis, est ganhando reedio de 50 aniversrio pela mesma Record). Graas ao olhar arguto, a literatura de Le Carr sobreviveu, com brio, ao fim da Guerra Fria. Isso se comprova neste novo livro. Em Uma Verdade Delicada, um diplomata veterano  destacado para uma operao no protetorado ingls de Gibraltar, a fim de deter um suposto mercenrio ligado ao terrorismo rabe. Anos depois, revela-se a sujeira por baixo da empreitada.


8#7 OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1- A Culpa  das Estrelas. John Green. INTRNSECA
2- Inferno. Dan Brown. ARQUEIRO
3- O Silenciadas Montanhas. Khaled Hosseini. GLOBO
4- Cidades de Papel. John Green. INTRNSECA
5- O Teorema Katherine. John Green. INTRNSECA
6- Fim. Fernanda Torres. COMPANHIA DAS LEIRAS
7- Cinquenta Tons de Cinza. E.L. James. INTRNSECA
8- O Lado Bom da Vida. Matthew Quick. INTRNSECA
9- Quem  Voc, Alasca? . John Green. MARTINS FONTES
10- O Chamado do Cuco. Robert Galbraith (J.K. Rowling). ROCCO

NO FICO
1- Nada a Perder 2. Edir Macedo. PLANETA DO BRASIL
2- 1889. Laurentino Gomes. GLOBO
3- Demi Lovato - 365 Dias do Ano. Demi Lovato. BEST SELLER
4- Kardec - A Biografia. Marcel Souto Maior. RECORD
5- Eu Sou Malala. Malala Yousafzai. COMPANHIA DAS LETRAS
6- Sonho Grande. Cristiane Corra. PRIMEIRA PESSOA
7- Corta pra Mim. Marcelo Rezende. PLANETA
8- Dcada Perdida. Marco Antonio Villa. RECORD
9- 1808. Laurentino Gomes. PLANETA
10- Guia Politicamente Incorreto da Histria do Mundo. Leandro Narloch. LEYA BRASIL

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1- Kairs. Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM
2- O Encontro Inesperado. Zibia Gasparetto. VIDA & CONSCINCIA
3- Eu Me Chamo Antonio. Pedro Gabriel. INTRNSECA
4- A Casamento Blindado. Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL
5- Desperte o Milionrio que H em Voc. Carlos Wizard Martins. GENTE
6- Eu No Consigo Emagrecer. Pierre Dukan. BEST SELLER
7- O Monge e o Executivo. James Hunter. SEXTANTE
8- O Mtodo Dukan - Eu No Consigo Emagrecer. Pierre Dukan. BEST SELLER
9- S o Amor Consegue. Zibia Gasparetto. VIDA & CONSCINCIA
10- Crianas Francesas No Fazem Manha. Pamela Druckerman. FONTANAR 


8#8 ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  BARATEAMENTO J
     O julgamento iniciado na semana passada no Supremo Tribunal Federal sobre a constitucionalidade das doaes de empresas s campanhas eleitorais tem potencial para virar a poltica brasileira de cabea para baixo. A ao  de autoria da Ordem dos Advogados do Brasil, que apresenta como argumento central o fato de as empresas no terem direito de cidadania. Como tal, no votam nem podem ser votadas; portanto, no esto credenciadas a participar do processo eleitoral. Ao participarem, como ocorre hoje, distorcem o processo em favor do poder econmico. Segundo sustentou perante o tribunal a advogada Aline Osrio, citando estudo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) do qual foi uma das autoras, 97% das doaes nas eleies de 2010 foram feitas por empresas. O parecer do procurador-geral da Repblica, Rodrigo Janot, bem como o voto do ministro-relator do processo, Luiz Fux, foi de acolhimento da ao. O ministro Teori Zavascki pediu vistas e assim trancou o julgamento, mas o presidente da corte, Joaquim Barbosa, apressou-se em adiantar seu voto, e enfaticamente acompanhou o relator. Dois outros ministros, Dias Toffoli e Lus Roberto Barroso, fizeram o mesmo. Assim, no fim da semana j se tinha o placar extraoficial de 4 a 0 pela proibio das doaes empresariais.  
     A defesa do sistema vigente esteve a cargo do advogado-geral da Unio, Lus Incio Adams. Falando em nome do governo, citou dois argumentos de peso. O primeiro  que se trataria de assunto a ser resolvido pelo Congresso, no pelo Supremo. O segundo, que se estaria apreciando apenas um lado da questo. "No se pode falar em contribuies de campanha sem falar das despesas", disse. O primeiro argumento ser um ponto central na retomada do julgamento. O ministro Barroso, em seu voto, reconheceu que o Supremo agia "no limite de suas possibilidades", embora, a seu ver, no as excedesse, dada a "interface constitucional" embutida na questo. O segundo argumento , sim, igualmente forte, mas com a particularidade de funcionar no sentido contrrio ao pretendido por seu arguidor. A proibio das doaes das empresas vai, sim, forar a que se fale das despesas. E essa pode vir a ser a melhor de suas consequncias. 
     Que ocorrer no dia seguinte, caso se confirme a propenso do Supremo de determinar a inconstitucionalidade das doaes? O primeiro efeito  fcil de prever: a retomada da causa, cara ao PT, do financiamento pblico das campanhas. O ministro Dias Toffoli, em geral alinhado s teses do partido do governo, no deixou de aproveitar a oportunidade para defend-la, em seu voto. O segundo efeito  tambm fcil de prever: uma forte reao pblica contra escoar dinheiro pblico, mais ainda do que j  escoado para o ralo do Fundo Partidrio e o da iseno fiscal s emissoras pelos horrios de propaganda poltica, para sustentar campanhas eleitorais. Eis um bendito impasse. Necessariamente, leva ao verdadeiro cerne da questo: o custo astronomicamente alto das campanhas brasileiras. Segundo o estudo j citado da Uerj, um deputado federal gastou em mdia para se eleger, em 2010, 1,1 milho de reais; um senador gastou 4,5 milhes; e um governador, 23,1 milhes. Se, nas eleies de 2002, os gastos lotais foram de 800 milhes de reais, nas de 2010 subiram para 4,5 bilhes  um aumento de 600%. 
     Pela via da eliminao do motor que sustenta o viciado sistema atual, que so as doaes das empresas, pode-se chegar ao que realmente se impe, em favor da sade do processo poltico  o barateamento das campanhas. Um bom comeo, para caminhar nesse sentido, seria repensar as majestosas e milionrias estruturas que vo dos marqueteiros aos cabos eleitorais, passando por produes de propaganda televisiva caras como filmes de cinema. Um bom fim seria encarar uma reforma do sistema poltico realizada sob o princpio orientador do barateamento. Disse o ministro Barroso que o Poder Legislativo enfrenta "entraves prprios  poltica", que por sua vez levam a "impasses que emperram a histria". A funo do Supremo nesses casos, e assim teria ocorrido nos episdios recentes do casamento homossexual e dos fetos anencfalos, seria "fazer a histria andar". O atual julgamento tem potencial para faz-la andar na boa direo. 


